Porque Toyota e Honda vencem na crise

As montadoras parecem não sentir a queda na venda
de automóveis como suas concorrentes

 

por José Roberto Ferro

Presidente do Lean Institute Brasil

abril/2015

 

 

Os períodos de crise fazem surgir os verdadeiros campeões. Nos momentos de expansão do mercado, muitos parecem surfar tranquilamente e se beneficiar. Porém, quando os consumidores fogem e se tornam mais críticos e seletivos, as coisas mudam muito.

 

Parece ser o caso do mercado automotivo no Brasil nos primeiros três meses do ano. As vendas de automóveis e comerciais leves tiveram queda de mais de 17% neste primeiro trimestre, com relação ao mesmo período do ano passado.

Mas a queda tem impactado as diferentes marcas em magnitudes muito diversas. Abordando apenas as marcas com maior volume de vendas, notamos que Citroën, Fiat e Volks estão se tornando os grandes perdedores com a diminuição das vendas, respectivamente, de cerca de 47%, 27% e 22%.

 

Já outras marcas, como GM, Renault e Ford, estão perdendo moderadamente: queda de vendas de, respectivamente, cerca de 18%, 15% e 4%.

 

Mas há marcas que conseguiram não apenas ampliar sua fatia de mercado, como, e mais surpreendente ainda, exibir aumentos reais de vendas.

 

É o caso da Toyota e da Honda, que parecem não sentir a crise como outras concorrentes. Ambas tiveram significativos aumentos em vendas neste primeiro trimestre.

 

A Toyota, por exemplo, vendeu 41.055 veículos no primeiro trimestre, crescimento de mais de 12% em comparação com mesmo período do ano anterior. Já a Honda, por sua vez, vendeu 32.857 unidades de janeiro a março, também apresentando um crescimento superior a 12%.

 

O que faz tais empresas conseguirem esses resultados tão expressivos em um período de enorme declínio? Ambas tem estratégias parecidas e sistemas de gestão semelhantes. Vejamos alguns dos elementos que as tornam tão especiais.

 

Em primeiro lugar, uma obsessão pela qualidade. Embora muitas outras empresas também se preocupam com a qualidade, acabam priorizando garantir os volumes de produção e vendas acima de tudo.

 

Entretanto, essas duas montadoras levam essa orientação a um novo patamar. Desde que começaram a comercializar e a produzir seus veículos no país, Toyota e Honda lideram as pesquisas de satisfação dos clientes, não apenas com os produtos em si e sua durabilidade, como também com os serviços oferecidos pelas concessionárias e elevado valor de revenda.

 

Além disso, têm uma grande preocupação com a eficiência e custos, além de estabelecer relações de confiança de longo prazo com suas concessionárias e principais fornecedores.

 

As estratégias de investimentos focalizam em poucos produtos e em baixos volumes, com incrementos graduais, para poder garantir os elevados níveis de qualidade e eficiência e também enfrentar as oscilações do mercado.

 

Desse modo, na contramão do setor, essas duas empresas estão ocupando plenamente a sua capacidade produtiva neste momento e, ainda, estão investindo em ampliações.

 

A Honda, por exemplo, está investindo R$ 1 bilhão em sua segunda fábrica no país, em Itirapina, no interior de São Paulo, que vai empregar cerca de dois mil funcionários, para a produção do novo Fit, e deverá dobrar, assim, a capacidade produtiva da empresa no Brasil de 120 mil unidades por ano para 240 mil.

 

Do mesmo modo, a Toyota também está investindo em uma nova fábrica, desta vez de motores, na cidade de Porto Feliz, interior de São Paulo, com capacidade de 70 mil motores por ano a partir de 2016.

 

Tanto Toyota quanto Honda têm tido uma estratégia consistente de crescimento lento, com foco em valor para os clientes, e no desenvolvimento de capacitação local em manufatura, engenharia etc.

 

Outras empresas cresceram mais rápido e até prosperaram. Mas na hora da crise, as diferenças de estratégia aparecem, e a superioridade do enfoque que valoriza qualidade e uma visão de longo prazo torna-se evidente.

 

Muitas montadoras têm se dedicado a copiar algumas das técnicas e ferramentas de gestão desenvolvidas pioneiramente pela Toyota, seguidas, em grande medida, pela Honda. E, com isso, têm tido melhorias em seus desempenhos.

Porém, a mudança essencial na filosofia de gestão e no modo de pensar e fazer as coisas ainda não foi feita. Talvez este momento possa ser utilizado para a reflexão e a definição de uma nova etapa no sistema de gestão e na estratégia dessas outras montadoras. Para o bem delas e dos clientes.

 

Toyota e Honda têm tido seus percalços, equívocos e dificuldades no país. Não são empresas perfeitas, mesmo porque isso não existe. Mas seus desempenhos recentes contrastam radicalmente com o desempenho do setor.

 

 

Fonte: Época Negócios - 14/04/2015

 

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